Marcus Vinicius Em 2 - maio - 2017

Como eu conheci o Demolidor

Olá, amigos da Cozinha! Resolvi contribuir com conteúdo sobre o Atrevido para a página irmã do Aracnofã, a Cozinha do Inferno. A princípio, tenho a intenção de publicar por aqui, material sobre as fases pouco exploradas do Demolidor, que saíram nos bons tempos do formatinho. Existe muita coisa legal para ser debatida nas passagens de Denny O’Neil, Ann Nocenti e D.G. Chichester pelos arredores do bairro barra-pesada de Nova York!

Demolidor desenhado por John Romita Sr. e arte-finalizado por John Romita Jr.

Após ter pensado bastante, decidir voltar alguns anos no tempo e registrar o primeiro contato que tive com uma história do Demolidor, mais precisamente no final do ano de 1994. Era de costume meus pais me levarem a uma livraria de um hipermercado. Eu sempre marcava presença por lá, mesmo que não convencesse meu pai a comprar uma revista na maioria das vezes.

Eis então que um dia, escolhi aleatoriamente o formatinho de Superaventuras Marvel número 149, que trazia Adam Warlock na capa. Fiquei muito impressionado com os desenhos que destoavam bastante daqueles da Disney e da Turma da Mônica, dos quais estava acostumado. Lembro também de um sentimento de grande estranheza ao me deparar com um super-herói vestido de Diabo!

Eu tinha quase nove anos na época e me esforçava bastante para entender aquele tipo de narrativa que obviamente não era destinada à minha faixa etária. Lembro que eu não sabia o significado da palavra “Mercenário” e muito menos que ela se referia a um dos icônicos vilões do Demolidor!

Para uma análise mais profunda, ao invés de falar somente sobre a história “As Notícias Que Interessam” de SAM 149, última da longeva passagem de Ann Nocenti em Demolidor, revisitarei as histórias que imediatamente a antecedem. Nocenti esteve à frente do Demolidor por cerca de cinco anos e escreveu três grandes arcos e um breve crossover com o Capitão América de Mark Gruenwald. Por ora, vou me ater ao último arco.

 

Breve Histórico de Ann Nocenti

Ann Nocenti nos anos 80.

Nocenti começou sua carreira como redatora técnica em empregos irregulares. Escrevia sobre fisiologia alimentar, energia solar e outros assuntos, além de romances. Também esteve anteriormente envolvida com artes no período da faculdade. Após ver um anúncio no jornal Village Voice, ficou sabendo de uma vaga em uma empresa de histórias em quadrinhos não creditada. Demonstrou interesse de imediato mesmo sem nunca ter tido contato com esse universo, além de ter se livrado de um preconceito sobre quadrinhos serem um “simples produto industrial em escala, como pacotes de biscoito”.

Chegando à Marvel, Nocenti foi assistente de Jim Shooter, Al Milgrom, Carl Potts e Louise Simonson, que coordenava na época os títulos dos mutantes. Personagens como Longshot, Mojo, Coração Negro e Mary Typhoid foram criados por Nocenti em conjunto com alguns artistas. Após passar pela linha editorial dos mutantes, ela passou a trabalhar como escritora freelancer quando assumiu Demolidor.

Nocenti sobre o Demolidor: estou gostando muito de escrever histórias dele. O personagem é maravilhoso. Só pelo fato de existir, já está em conflito. Ele é alguém que achou um meio de fuga, um homem que fez a promessa, no leito de morte do seu pai, de nunca lutar, mas que acabou encontrando uma brecha na lei e criou o Demolidor como meio de manter em pé esse juramento. Há um grande paradoxo nele. Matt Murdock representa o sistema e, como vigilante, é uma contradição a esse mesmo sistema. Algumas histórias faziam alusão às suas crenças cristãs, enquanto seu uniforme evocava o diabo. Ele é um paradoxo vivo, não só pela dupla identidade, mas também por haver inúmeras camadas de esquizofrenia em sua personalidade. Eu quero pegar esse herói, afundar meus dentes nele e sacudi-lo, como um cachorro com uma boneca de pano na boca.

Fonte: Superaventuras Marvel 88, editora Abril – outubro de 1989.

 

Dan Green, Ann Nocenti e John Romita Jr. em 1985. Romita foi o principal artista que acompanhou Nocenti no título do Demolidor.

 

O Forasteiro (Daredevil v1 #284. No Brasil, Superaventuras Marvel #143 – maio de 1994)

Na história “O Forasteiro”, com desenhos de Lee Weeks e arte-final de Al Williamson, o Demolidor está em Manhattan, tomando conhecimento do seu desaparecimento e se indagando por quanto tempo esteve fora. O herói quase morreu em uma luta com vários vilões e após isso, passou por uma temporada de exílio, onde se encontrou com muitos personagens, dentre eles alguns dos Inumanos e o demônio Mefisto. Ele está abatido e desmemoriado, tendo alucinações recorrentes com pessoas próximas, inimigos e transeuntes vestidos de “anjos com chifres”.

Nocenti inicia nessa história, questionamentos sobre o papel e significado de um herói, usando brevemente uma alucinação do Capitão América contestando o simbolismo do uniforme do Demolidor.

Logo após essa passagem, o herói arruma alguns contratempos em um bar e se envolve em uma briga na rua. Em outro lugar, o Mercenário sem o uniforme característico, realiza furtos em algumas residências e depois de sair de uma delas, avista o Demolidor apanhando. Ironicamente, ele salva o herói.

O vilão retira a máscara do Demolidor e Matt transtornado, se apresenta como “Jack”. Pouco depois em um bar, alguns clientes assistem na TV, notícias sobre o reaparecimento do Demolidor. Matt com as roupas civis do Mercenário se revela estar entre eles e com um visível ar de insanidade pergunta: quem é esse Demolidor? E o que ele quer provar?

 

Sombras (Daredevil v1 #285. No Brasil, Superaventuras Marvel #144 – junho de 1994)

História feita pela mesma equipe anterior. No primeiro quadro, o Demolidor salta por entre os prédios e o texto apresenta o conceito de herói segundo os pensadores Ernest Hemingway, Nietzsche e James Joyce. Logo é revelado que o Demolidor não é Matt e que este, se encontra andando desnorteado pelas ruas. Ele também reage com estranheza aos seus sentidos extrassensoriais.

Nocenti volta a expor aqui argumentos sobre problemas sociais, uma de suas marcas em narrativas, ao apresentar uma criança roubando uma fruta para saciar sua fome. Matt reprova instintivamente à atitude do garoto, pois ainda guarda uma noção de justiça, mesmo com sua mente fragilizada. Porém, ele logo concorda com o garoto e repete o comportamento.

Em outro local, as pessoas de NY reclamam com policiais, afirmando que o sujeito vestido de Demolidor está cometendo assaltos. A partir desse ponto, a história levanta questões de racismo, mostrando um juiz de cor negra e moral íntegra, sendo abordado e agredido por criminosos brancos, que o obrigam a relativizar uma sentença. A escritora faz um paralelo entre o preconceito sofrido pelo juiz e uma recente visita de Nelson Mandela à cidade, evidenciando que Nova York foi bastante generosa com o líder sul-africano, porém omissa com um dos seus conterrâneos sendo espancado na rua.

Nesse interlúdio, Matt conhece uma jovem mulher negra chamada Nyla Skin, que o convida para uma visita. O Mercenário vestido de Demolidor entra em uma casa para cometer furtos, quando é abordado por sua moradora, uma moça rica e insatisfeita com a vida que leva.

Matt encontra o juiz negro ferido em um beco e o leva para a residência dele. Pouco depois, ele conhece Marcus, o indignado filho do juiz. Novas questões sobre justiça e racismo são levantadas pela escritora. No fim do dia, Matt vai à casa de Nyla para dormir e recebe a controversa proposta de sair para cometer furtos. Ela se justifica usando o problema da desigualdade social e má distribuição de renda.

 

O Ladrão (Daredevil v1 #286. No Brasil, Superaventuras Marvel #145 – julho de 1994)

Nocenti conta aqui com uma equipe artística bem incomum no título do Demolidor: Greg Capullo (mais conhecido recentemente por seus trabalhos em Batman) nos desenhos e Doug Hazlewood na arte final. A história começa em um tribunal, onde o juiz negro da história anterior está levitando e proferindo palavras que descrevem o paradoxo da figura heroica do Demolidor: que é o de um advogado que atua como vigilante mascarado à margem da lei. Matt, uma versão adolescente sua e Nyla são testemunhas nesse cenário bizarro. Vale destacar que as respectivas sombras do juiz, de Matt e do adolescente exibem chifres. Nas próximas páginas é revelado que isso não passa de um sonho de Matt, que está dormindo na casa em ruínas de Nyla.

Os dois saem com o propósito de roubar uma casa e chegando lá, Matt se surpreende com suas habilidades físicas e sensoriais que estão sendo gradativamente recuperadas, além de sua mente e sanidade, porém estas em menor escala. Ele e Nyla entram com relativa facilidade na residência, abatem um guarda e após estarem diante de uma fortuna contida em um cofre, começam a ter divergências quanto ao que acabaram de praticar.

Matt abandona a residência e lembra que devia prestar ajuda ao juiz, para protegê-lo de outra possível agressão. Em um interlúdio, Marcus está voltando para casa e observa o comportamento preconceituoso de algumas pessoas no caminho. O juiz é novamente abordado pelos mesmos marginais que o espancaram, só que dessa vez em sua residência. Após uma discussão, o agressor chamado Nick atira no juiz a queima-roupa e em seguida os dois fogem. Matt passa em frente ao ginásio Fogwell’s Gym (onde seu pai Jack treinava boxe), percebe que o ambiente é familiar e logo se encaminha para a casa do juiz, onde o encontra caído e gravemente ferido. Ele sente os últimos batimentos cardíacos do idoso que então vem a falecer.

Nesse ínterim, Marcus chega em casa e vê o pai morto, se revolta e jura vingança à dupla Nick e Frankie. O Mercenário ainda vestido de Demolidor continua cometendo furtos e é visto ao longe por Ben Urich, que com um exemplar do Clarim Diário em mãos, se indaga com a recente fama de criminoso do Demolidor. O vilão entra em um armazém abandonado e presenteia seus furtos à moça rica que encontrou na história anterior, atitude que sugere um possível romance entre os dois. Após isso, ele justifica suas ações com motivações ligeiramente semelhantes às de Nyla, parceira de Matt, porém vistas sob um espectro diferente.

Ao final da história, Marcus vai atrás dos assassinos de seu pai (destinado a matá-los) e quando se encontra em desvantagem, é salvo por Matt. O herói condena a atitude do rapaz e logo é repreendido com o argumento de que “desconhece a forma de justiça dos negros”. Mais tarde, Matt vai ao ginásio Fogwell’s Gym e após nocautear um lutador, convence o treinador de que pode subir no ringue.

 

O Lutador (Daredevil v1 #287. No Brasil, Superaventuras Marvel #146 – agosto de 1994)

A equipe artística Weeks/Williamson retorna para essa história, que começa com o falso  Demolidor assaltando um banco e assumindo uma postura de Robin Hood bastante controversa. Mais tarde ele retorna ao seu lar improvisado e é recebido com certa inconveniência por parte de sua parceira. No Clarim Diário, Ben Urich discute com J.J. Jameson sobre a integridade do Demolidor, cuja reputação está sendo difamada na imprensa.

No Fogwell’s Gym, Matt está ganhando repentina notoriedade como pugilista e tem seu desempenho notado da plateia por ninguém menos do que Wilson Fisk! Após a luta, Matt comenta com Nyla que reconheceu alguém do seu passado e ambos vão para casa. É interessante perceber que, pelo fato desse arco de histórias ser o último de Nocenti, a escritora volta a reunir gradativamente os coadjuvantes do universo do Demolidor, após levar o herói para um exílio com personagens atípicos, obviamente para entregar o título para a próxima equipe criativa. Assim como o Mercenário e Ben Urich foram reapresentados nas edições anteriores, Fisk retornou nessa edição.

No Clarim, a parceira do Mercenário denuncia as ações do falso Demolidor para um jornalista, sugerindo então uma brusca reviravolta nos noticiários. No lar de Nyla, Matt sonha com Stick e Elektra, se indaga com a fala paradoxal de seu mentor sobre “lutar com bondade” e associa com os conselhos de “não seja um lutador” de seu pai. Ao acordar, decide ir atrás de Marcus.

O rapaz está em casa interrogando Frankie, que acoberta o assassinato do juiz feito por Nick. Mesmo com o estado emocional abalado, Marcus não perde a racionalidade e contesta os argumentos de Frankie. Escondido próximo à janela, Matt escuta toda a conversa. Ben Urich, com a intenção de averiguar o paradeiro de Matt, encontra Foggy Nelson em uma biblioteca.

Matt vai atrás de Nick, o subjuga e o prende em um poste na rua. Revela que o marginal é o assassino do juiz e vê nessa ação, uma lição aprendida (ou reaprendida) do sonho que teve. No ginásio, após uma luta, Matt conversa com Nyla e revela não ser capaz de distinguir cores, o que deixa a moça em um dilema sobre o relacionamento inter-racial dos dois. No final da história, o editorial de Urich é publicado (ganhando certa antipatia de Jameson) e o Mercenário surge nas ruas recebendo apoio de populares confusos. O vilão se irrita, e contraditório como é, resolve mostrar que ele “não é o herói”.

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O Discípulo (Daredevil v1 #288-289. No Brasil, Superaventuras Marvel #147 – setembro de 1994)

Reparou que a montanha tem o formato do rosto de Fisk?

História que conta com Lee Weeks e Kieron Dwyer nos desenhos e Al Williamson, Lee Weeks e Fred Fredericks na arte-final. Dwyer foi o desenhista de parte do run de Capitão América de Mark Gruenwald, após a conclusão do arco “Capitão América Nunca Mais”. Voltando ao Demolidor, Matt novamente está sonhando e torna a enfrentar os dilemas levantados por Stick, que põe os respectivos valores e personalidades de Matt e Elektra de forma diametralmente opostos.

O Mercenário visita Fisk em seu escritório e é repudiado por este, que lembra dos eventos recentes envolvendo o Caveira Vermelha (no ótimo arco Ruas de Veneno do Capitão América de Gruenwald). Fisk fica ainda mais irritado ao saber que o Mercenário era o sujeito por trás da identidade do Demolidor. Os atos de roubar dos ricos para dar aos pobres ganham o apoio dos populares da Cozinha do Inferno, o que causa indignação ao Mercenário e o leva a cometer atrocidades com pessoas simples. Matt dorme por quatorze horas e chega à conclusão de que para ter suas memórias de volta, precisará de alguma forma, retomar às origens. No Fogwell’s Gym, Fisk agride o administrador do local e o convence a forjar uma luta de boxe semelhante a que levou Jack Murdock (pai de Matt) à morte. Em sonhos, Matt compreende o que o diferencia de Elektra.

No Clarim, Ben Urich percebe a estranha a coincidência dos supostos crimes do Demolidor e o surgimento de um novo pugilista chamado Jack Murdock. Em outo sonho, Matt compreende a lição de Stick, e ao acordar, revela à Nyla que de cetra forma, renasceu.

Enquanto isso, o Mercenário é contatado por Fisk e recebe a missão de ir atrás de Nyla, que logo é sequestrada após deixar Matt no Madison Square Garden. Nosso herói é persuadido pelo administrador do evento a perder, nega o pedido e se sente mais motivado para vencer. Na luta, Matt mostra uma vantagem inicial em relação ao seu adversário, fraqueja, cai do ringue e após conversar rapidamente com o espectador Ben Urich, retorna e vence o combate. Nesse momento, ao reviver o passado do pai e de sua infância, o herói tem suas memórias e sanidade recuperadas. No ímpeto, ele vai atrás dos sequestradores de Nyla, enfrenta uma perseguição eletrizante e subjuga todos os capangas de Fisk. No arranha-céu do Rei, Matt recupera Nyla e ameaça seu arqui-inimigo. O casal vai embora e Matt se despede de Nyla. Essa foi a última aparição da personagem no título do Demolidor.

 

 

Mercenário (Daredevil v1 #290. No Brasil, Superaventuras Marvel #148 – outubro de 1994)

A história conta Kieron Dwyer nos desenhos e Fred Frederick na arte-final. Aqui temos um prólogo mostrando Fisk e seus assessores em uma grande mesa. O vilão sugere trilhar caminhos que envolvam “crimes de colarinho branco” e propõe a compra de meios de comunicação, como um título de jornal impresso e uma emissora de TV.

Após o prólogo, vemos Matt tomando ciência das atividades do Falso Demolidor e chegando à conclusão de que se trata do Mercenário! O herói encontra o esconderijo vazio e consequentemente o uniforme azul do vilão. Logo em seguida, o falso Mercenário vai ao encalço do falso Demolidor!

Em seguida, em uma das ruas da Cozinha, ocorre um tumulto envolvendo populares e um assalto. Uma dupla de jovens decide abordar os ladrões e o falso Demolidor apenas assiste ao fato, zombando do ocorrido e sendo hostilizado em seguida pelos populares ali presentes. Ele decide ir embora e em outro lugar, vê uma idosa sendo assaltada. O vilão, com uma atitude violenta, aparentemente mata o ladrão e deixa a confusa idosa assustada. Quando ele sugere agredir a mulher, eis que surge Matt, o falso Mercenário!

Aqui encontramos o grande clímax desse arco de Nocenti, com a criativa sequência de luta que mostra herói e vilão com identidades trocadas. Uma analogia bastante interessante com o que ocorreu ao longo das edições anteriores, mostrando as respectivas crises de identidade do Demolidor e do Mercenário. Matt brinca com a situação, se mostrando bastante sarcástico e relativamente sombrio (traço de sua personalidade que o escritor D.G. Chichester irá desenvolver com mais detalhes posteriormente), enquanto que o Mercenário oscila um estado de sensatez.

Um interlúdio mostra um monólogo de Foggy Nelson, que lamenta pelo rumo da sua carreira de advogado, inclinada nos últimos tempos a privilegiar corporações ao invés de clientes desamparados. De volta à luta, em certo momento é feita uma alusão ao clássico confronto Demolidor versus Mercenário, ocorrido na fase de Frank Miller, que levou o vilão a ficar fora de atividade por um longo período. Ao final da história, Matt derrota o Mercenário e recupera o último elemento de sua verdadeira identidade ao tomar em suas mãos o capuz do Demolidor.

 

As Notícias Que Interessam (Daredevil v1 #291. No Brasil, Superaventuras Marvel #149 – novembro de 1994)

Enfim, chegamos à edição em que eu conheci de fato o Demolidor! “As Notícias Que Interessam” foi a última história do grande run de Ann Nocenti no título Daredevil e conta com Lee Weeks nos desenhos e Fred Fredericks na arte-final. Começamos com uma imagem de um acidente de corrida automobilística, acompanhado de um monólogo bastante contraditório (e divertido para o leitor) de Ben Urich, um fumante compulsivo que pretende retaliar por meio de um artigo, uma empresa do ramo tabagista! Após a publicidade de cigarro ter sido banida da TV, ela encontrou um meio de perpetuar em logomarcas de carros de corrida.

Em outro momento, o repórter fala ao telefone com um empreiteiro que aparenta boa índole sobre um esquema indevido de desapropriação imobiliária. Do outro lado da linha, o empreiteiro é coagido por Bullet, um personagem criado por Nocenti e que deu as caras pela primeira vez por aqui na longínqua Superaventuras Marvel 79 (janeiro de 1989). Bullet era um criminoso menor, de porte físico avantajado e que cobrava para praticar crimes. Ele também era um pai divorciado que criava o pequeno Lance, um garotinho vítima da paranoia nuclear da Guerra Fria.

Em uma parte da Cozinha do Inferno, um renovado Demolidor procura recuperar a confiança de uma criança do bairro.  Em outro lugar, Lance, filho de Bullet, está em casa brincando com uma amiga e ambos estão vestidos com trajes antirradiação e envoltos por suprimentos de remediação a um improvável ataque nuclear, uma mostra do grau de paranoia do menino.

Assim como no título do Demolidor, Nocenti também tratou do assunto de alienação às massas por meio da mídia nos títulos dos Novos Mutantes e X-Men. O vilão Mojo, por exemplo, é uma espécie de regente de uma dimensão paralela em que escravos são atores de uma emissora de TV sensacionalista. Voltando ao lar de Lance, Bullet está ao telefone discutindo com sua ex-esposa e após isso, se irrita e expulsa a pequena amiga de Lance de casa com um breve discurso machista, resultado de sua frustração com o gênero feminino. Ele volta a si e pede desculpas ao filho.

Foggy, em seu apartamento, mostra alguns pertences recuperados da antiga casa de Matt, sente falta do amigo e como na edição anterior, volta a lamentar por suas atitudes recentes na advocacia. No Clarim, Urich se surpreende com a liberdade editorial concedida por Jameson sobre o caso de especulação imobiliária. Quando o editor-chefe sai de cena, o Demolidor aparece na janela, reencontra o amigo jornalista e sai de lá com uma nova missão a cumprir.

No torre Fisk, o vilão revela que é o contratante de Bullet (subtrama que lembra alguns acontecimentos da primeira temporada do recente série da Netflix) e torna a conversar com seus assessores sobre os novos empreendimentos na área de comunicação social.

Na rua, o Demolidor já descobre nesse ponto que Bullet é o agressor do empreiteiro, e logo em seguida, encontra o vilão e os dois partem para a briga no meio de populares que ainda desconfiam da índole do Atrevido. Ao coagir o empreiteiro, Bullet tomou posse de um mapa de propriedades que seria entregue a Fisk. O Demolidor derrota o criminoso e a criança desconfiada do início da história, reaparece e lhe entrega o mapa em mãos, que se encontrava no bolso do abatido Bullet.

No Clarim, Urich se sente recompensado com o caso da especulação imobiliária sendo publicado no jornal de forma devida, mas por outro lado, indignado com os cortes feitos por Jameson no artigo sobre tabagismo! A história termina com Matt voltando para o seu antigo escritório de advocacia e reencontrando um tristonho Foggy Nelson. Os grandes e velhos amigos se abraçam com bastante comoção.

 

 

 

É isso, galera! Termino aqui os meus primeiros escritos sobre o Demolidor para o site Cozinha do Inferno. Resolvi falar por completo do último arco de Nocenti para mostrar o que havia por trás dessa última história. Quis dar um background necessário com resumos descritivos das edições anteriores. Superaventuras Marvel 149 é uma edição que traz para mim bastante nostalgia! Eu perdi o meu primeiro exemplar com uma ideia estúpida de montar um álbum de heróis (sim, eu recortei o formatinho). Cerca de vinte anos depois, encontrei outro exemplar em um sebo. Naquele momento fiquei bastante emocionado! Eu queria falar com as pessoas que lá estavam sobre o quanto aquele momento estava sendo especial!  Da mesma forma que o Demolidor esteve em outras paragens e afastado dos amigos, também estive afastado dos quadrinhos. Ele precisou voltar às origens e se redescobrir como herói, assim como eu redescobri o meu velho hábito de ler hq’s! Demorou duas décadas para que eu entendesse de forma ampla, o real significado do abraço de Matt e Foggy e o seu forte simbolismo do fim de uma jornada.

Superaventuras Marvel #149. publicada pela editora Abril em novembro de 1994.