Marcus Vinicius Em 14 - agosto - 2017

A Queda de Murdock – Parte 3 [Final]

Fala, galera! Chegamos ao final da nossa empreitada. Vamos ao que interessa!

 

Armagedon (Daredevil #233, publicada originalmente em agosto de 1986)

“Eu não devia chamá-lo de Matt. Não agora… quando está de uniforme. Ele é o Demolidor. O Homem Sem Medo.”

A última edição de A Queda de Murdock dá prosseguimento ao caos na Cozinha do Inferno provocado por Bazuca e traz uma singela nota de rodapé com os dizeres: “Esta edição é respeitosamente dedicada a Jack Kirby”. Frank Miller voltou à Marvel em 1986 com a alcunha de celebridade da indústria, e de certa forma, se utilizava dessa condição para falar de como a editora maltratava o veterano artista. Kirby, o principal idealizador do processo “Marvel Way” de fazer quadrinhos, exigia na época junto aos seus advogados, o direito de propriedade de alguns dos grandes personagens da editora. Um grupo de 150 artistas chegou a elaborar uma petição pela devolução incondicional dos originais. 

Jack Kirby faleceu em 6 de fevereiro de 1994. Em junho do mesmo ano, Miller fez uma homenagem a Kirby em um seminário de quadrinhos em Baltimore com o seguinte discurso: “Com Jack Kirby encerra-se uma era. Não posso chamar de Era Marvel dos quadrinhos, pois não defendo recompensar ladrões. Eu chamaria de Era Jack Kirby dos quadrinhos”. Uma parcela de funcionários da Marvel que estava ali presente se sentiu incomodada e Miller acrescentaria ainda mais sobre o futuro dos quadrinhos ao falar do “histórico triste, infeliz, de vidas partidas… de talentos a quem foi negada a propriedade legal dos que criaram com as próprias mãos e mentes, ignorados ou tratados como incômodo enquanto suas criações ganhavam milhões de dólares” [1].

Tamanha é a devoção de Miller por Kirby que Armagedon é uma espécie de manifesto. Muito é dito nas entrelinhas, principalmente pela presença de um personagem muito especial que logo será revelado. O Demolidor tenta a todo custo deter a destruição causada por Bazuca e pelo piloto do helicóptero. Por meio de seus sentidos, o herói se surpreende com a constituição física aparentemente inabalável do soldado.  Ao longe, o Rei observa a guerra na Cozinha do Inferno enquanto é reprovado em vão por Wesley. Bazuca cai em cima da rede elétrica e em seguida no teto de um carro. Urich e Glorianna assistem de perto todo o confronto. O casaco do repórter é tomado por fogo e a fotógrafa é alvejada pelo piloto do helicóptero. Com uma atitude drástica, o Demolidor em posse de uma arma de fogo abate o helicóptero e o piloto morre com a explosão que se sucede. De repente, Urich se surpreende com a chegada do trio de Vingadores primordiais, Capitão América, Thor e Homem de Ferro. Os heróis resolvem intervir na chacina ocorrida no bairro de Nova York.

Após a contenção de Bazuca, as horas passam e na torre Fisk o Rei conversa com figuras do crime organizado em uma sauna. Um dos presentes questiona os gastos exorbitantes para provocar a ruína de Matt, e ao mencionar Vanessa Fisk, é estrangulado impiedosamente pelo Rei na frente de todos. Na missão religiosa, vários feridos são amparados, inclusive Glorianna. Matt observa reservadamente a chegada de um desesperado Foggy à procura da fotógrafa. Após uma breve conversa com Karen, nosso herói sente uma presença peculiar nas redondezas e vai ao encalço dela. No terraço de um edifício ele encontra o Capitão América!

O Sentinela da Liberdade desconhece a figura de Bazuca e pede explicações. Matt reage com certo desdém e leva o Capitão a um dilema. Miller, por meio de uma narrativa sutil, brinca com o fato de Matt não poder enxergar a bandeira estampada no rosto de Bazuca. O Clarim Diário traz como matéria de capa o terror ocorrido na Cozinha do Inferno, com texto de Urich e fotos de Glori. Em outro lugar, o general mancomunado com Fisk e responsável por Bazuca recebe a visita do Capitão.

“Isso não significa nada para eles”, pensa o soldado. “Para eles, é apenas um pedaço de pano”.

Na Cozinha do Inferno, Matt lamenta pela destruição da lanchonete em que estava trabalhando recentemente. O Capitão invade a prisão conhecida como Gruta e lá acessa dados sigilosos em um computador. Ele descobre que Frank Simpson, o Bazuca, foi o único sobrevivente de experimentos que visavam recriar a fórmula do Supersoldado. Vale frisar o grau de descontentamento do Capitão com os rumos que sua pátria tomou. Bazuca é um reflexo da década de 80, onde as esperanças de liberdade do pós-guerra haviam dado lugar ao pessimismo dos últimos anos da Guerra Fria. Steve Rogers é marcado pelo drama de não pertencer à época em que vive e ainda precisa lidar com um indivíduo que representa um reflexo distorcido de si. Simpson é o subproduto de uma América que se distanciou dos seus valores fundamentais. Arrisco-me a dizer que os conflitos vividos pelo Capitão América em Armagedon são, de certa forma, análogos aos que o seu criador Jack Kirby enfrentava na época da história em questão. Em outra repartição da penitenciária, Bazuca agride um médico e militares que tentavam inutilmente contê-lo. O Capitão percebe a movimentação através de um alarme.

Em outro local, Fisk é premiado por uma associação de grandes empresários. O título foi fruto de várias coerções realizadas pelo vilão com o propósito de mascarar seu status de criminoso. Na Gruta, todos os seguranças são abatidos por Bazuca e o vilão é repreendido pelo Capitão. Os dois caem do alto da instalação militar. O Capitão carrega o desfalecido terrorista enquanto é perseguido pelos militares. O Demolidor intervém na perseguição, captura Bazuca e foge ganhando cobertura do Capitão. O herói da Cozinha do Inferno apreende um táxi e leva Bazuca à redação do Clarim Diário. A full page com o vilão deitado sobre a escrivaninha de Ben Urich é fantástica!

As motivações por trás da presença de Bazuca no bairro nova-iorquino são reveladas e convergem para a pessoa de Wilson Fisk. O criminoso recebe acusações de vários setores da sociedade, desde congressistas a traficantes e estelionatários. O Rei que há pouco era ovacionado pela opinião pública, sentia agora o sabor amargo do descrédito.

A Queda de Murdock termina com o quadro onde Matt e Karen, de almas renovadas, passeiam felizes pelas ruas da Cozinha do Inferno. Soube recentemente que Mazzucchelli se inspirou na capa do álbum The Freewheelin’ de Bob Dylan para representar o casal.

 

Outras Curiosidades da Saga

 

O Amigão da Vizinhança se encontra com Matt Murdock

A edição de Amazing Spider-Man #277 de junho de 1986 (nunca publicada no Brasil) mostra um encontro de Peter Parker com Matt, enquanto o herói da Cozinha do Inferno se recuperava na obra missionária de Maggie. A curta história de dez páginas feita por Tom DeFalco e Ron Frenz se inicia com Peter abalado pela falsa acusação de que seu amigo Flash Thompon seria o vilão Duende Macabro. O herói aracnídeo recebe um telefonema de Matt, visita a igreja e ouve os conselhos de seu ocasional parceiro de aventuras para tomar cuidado com Fisk, pois o criminoso também poderia descobrir sua identidade secreta. Depois de um tempo, Peter veste o uniforme de Homem-Aranha e vai até a torre Fisk tomar partido do amigo vigilante e tirar satisfação com o vilão.

 

Demolidor e Viúva Negra Enfrentam o Sonho Americano

Em Daredevil #236 (No Brasil, Superaventuras Marvel #70), Ann Nocenti e Barry Windsor-Smith trazem uma história que apresenta o Agente Hazzard, um soldado vítima de experimentos de lavagem cerebral, que por meio de hipnose, provoca ataques cardíacos em seus oponentes. O personagem se torna instável novamente após os incidentes causados por Bazuca na Cozinha do Inferno.  A Viúva Negra recebe a missão de conter o agente desequilibrado e reencontra o Demolidor no processo. A história é bastante reflexiva e mostra o drama de mais um soldado norte-americano, que após voltar da guerra, vive à margem da sociedade. Hazzard é um pária de uma nação que jurou defender.

 

 

 

 

 

A Queda do Rei do Crime

No final de 1991, o subestimado escritor Dan G. Chichester trouxe o arco de quatro partes Last Rites, publicado em Daredevil #297-300 (No Brasil, em Grandes Heróis Marvel #47 da editora Abril). Com arte de Lee Weeks, Chichester apresentou uma história competente, mas que não possui o mesmo brilho da obra que a inspirou. O Demolidor e a agência SHIELD promovem o declínio da credibilidade do Rei perante o submundo do crime. São reveladas evidências de que a organização terrorista HIDRA seria a principal financiadora da WFET, emissora de telecomunicações de Fisk. Elementos da Queda de Murdock são trazidos à tona nesse arco de histórias, como o acidente forjado pelo Rei para incriminar Matt de assassinato e a devastação de Bazuca na Cozinha do Inferno. O cassetete usado para matar o taxista John Gold ainda estava aos cuidados do Rei e nele continham marcadas impressões digitais de Matt. O artefato seria a única prova do Rei para frustrar os planos do Demolidor. O vilão foi condenado, mas absolvido por meio de fiança. Porém, desapareceu do mapa e chegou a ser morador de rua. Nessas histórias, Chichester abordou uma versão bastante sarcástica e sombria do herói. A Queda do Rei do Crime foi o ponto de partida de outras duas sagas interessantes publicadas nos anos 90: Herança do Rei e O Nome da Rosa. A primeira juntou o Demolidor, Justiceiro e Nômade no combate a um cartel formado por vários líderes criminosos e a segunda, publicada na linha do Homem-Aranha, mostrava o Aracnídeo contra Richard Fisk, filho do Rei e outrora vilão Rosa.

 

Censura e Defasagem Cronológica dos Tempos da Editora Abril

A Queda de Murdock foi publicada pela primeira vez no Brasil nos formatinhos de Superaventuras Marvel da editora Abril, no período de agosto de 1987 a fevereiro de 1988 (edições #62-68). Essa versão traz duas peculiaridades: a primeira diz respeito a sequencia em que Karen Page quer se suicidar com uma seringa de heroína (Salvo, Daredevil #231). Por motivos de censura, os desenhos foram alterados e a seringa foi substituída por um canivete! A segunda peculiaridade tem relação com a defasagem cronológica das histórias da Marvel no Brasil em relação às publicadas nos EUA. Como as histórias do Homem de Ferro ainda não haviam apresentado a armadura Centurião de Prata, a editora brasileira alterou os quadros originais e substituiu a armadura oitentista pela convencional de Tony Stark (Armagedon, Daredevil #233).

 

 

Referências da Queda na série da Netflix

Algumas sugestões de uma adaptação da Queda de Murdock na série da Netflix foram apresentadas na segunda temporada. Karen aparenta ter cometido algo comprometedor no seu passado ainda não explorado (descoberto por Ben Urich antes de morrer) e Wilson Fisk chega a desconfiar, por um breve momento, da identidade secreta do Demolidor na excelente cena em que Matt visita o criminoso na penitenciária. Como a secretária da Nelson & Murdock toma conhecimento do segredo de Matt, acredito que ela possa ser forçada de alguma forma e colocar seu namorado em maus lençóis. Outro elemento importante é o rompimento da sociedade dos amigos advogados e o fechamento da firma.

Em uma cena onde o Justiceiro explode um navio, pode ser percebido o número 227 estampado na carcaça da embarcação. Esse é o mesmo número da primeira edição da Queda de Murdock, que traz a história Apocalipse.

Bazuca teve uma relevante participação na série de Jessica Jones, e como o universo dos heróis é interligado, pode ser que tenhamos uma surpresa vindo por aí.

 

Então é isso, pessoal! Fico feliz por terem me acompanhado até aqui. Há muito tempo que sinto a necessidade de falar detalhadamente da minha história em quadrinhos favorita, pois em cada releitura, novas nuances eram descobertas. Comentem na página da Cozinha!

 

[1] Livro “Marvel Comics: A História Secreta” de Sean Howe, da editora Leya (edição de 2013).