Marcus Vinicius Em 6 - agosto - 2017

A Queda de Murdock – Parte 2

Sem muitos rodeios, darei prosseguimento à resenha de A Queda de Murdock iniciada no artigo anterior.

 

Renascido (Daredevil #230, publicada originalmente em maio de 1986)

 “Tudo mais na minha vida se foi, exceto a lição que aprendi de meu pai. Nunca desista. Nunca.”

A história se inicia com um breve prólogo mostrando Matt tendo lembranças dos acontecimentos recentes enquanto luta pela própria vida. Vozes indicando a presença de terceiros anseiam pela sua sobrevivência. Daredevil #230 traz o título de Renascido (Born Again), nome que também é atribuído originalmente a todo arco de histórias analisado. O título da edição é acompanhado da ilustração que faz a referência mais evidente da Paixão de Cristo, onde Matt deitado em um leito reproduz a posição de Jesus quando foi crucificado. Mazzucchelli fez uma combinação fantástica dos elementos do cenário, com parede, janelas e leitos formando uma cruz. Nos arredores de Matt, os outros homens acamados também podem simbolizar os malfeitores sentenciados no martírio de Jesus, chamados de Dimas e Gestas. A freira orando por Matt também simboliza Maria como na edição anterior. Podemos também nos atentar ao fato de que as perdas de Matt denotam a condição de Jesus durante o calvário: tudo lhe foi tirado a ponto de ficar nu.

A seguir, um interlúdio com as outras subtramas da história é apresentado. Karen já se encontra em solo estadunidense acompanhada do homem que agora pode ser identificado como Paulo. O Rei, ainda furioso com a sobrevivência de Matt, treina artes marciais em sua torre, e após isso, ordena ao seu assessor Wesley para que lhe informe sobre o paradeiro de um sujeito denominado Bazuca. Foggy, acompanhado de Glori, aprecia o seu novo e bem remunerado emprego. Urich e Manolis são atendidos por paramédicos no estacionamento do hospital. O policial foi ferido gravemente e o repórter traumatizado com a recente experiência, passa a evitar mencionar o amaldiçoado nome de Matt Murdock. É interessante notar que a arte de Daredevil #230 se diferencia das anteriores por mostrar traços mais simples e estilizados, principalmente nos quadros que narram a subtrama de Ben Urich. Pode-se notar que o corpo e as feições do repórter estão mais poligonais.

Matt se recobrando de seus sentidos aguçados, sente os odores e os sons do local em que se encontra. Logo reconhece que está em algum lugar da Cozinha do Inferno, mais precisamente em uma obra missionária de uma igreja. Nosso herói tenta se levantar do leito, cai no chão sem forças e logo é amparado pela freira que o salvou. Ela se apresenta como Maggie. Em outro lugar, Karen consegue o contato telefônico de Foggy e os dois combinam de se encontrar. No Clarim, Urich recebe uma bronca acalorada de Jameson por decidir se afastar do caso de Matt e depois percebe que ainda é vigiado por intermediários do Rei. Matt passa por um doloroso quadro febril enquanto é tratado pela freira, e ao tocar no colar da religiosa, reconhece o crucifixo. Seu tato hipersensível identificou a mesma peça de ouro de quando ainda estava em um leito de hospital, na época em que começou a manifestar seus poderes.

No Clarim, somos apresentados a uma das sequências mais memoráveis da Queda de Murdock: em um ambiente de trabalho tumultuado, Urich recebe uma ligação do policial Manolis, que ainda pretende lhe contar a verdade sobre o caso de Matt. São apresentados quadros alternados entre a redação do jornal e o hospital Bellevue. Durante a conversa telefônica, Urich é atormentado por seus colegas repórteres enquanto Manolis é surpreendido pela chegada da enfermeira que o agrediu. A mulher intercepta a conversa e mata o policial acamado, e Urich do outro lado da linha, acompanha o ocorrido em estado catatônico! Na entrevista com Mazzucchelli (citada na primeira parte da resenha) é dito que o artista se inspirou na obra O Grito de Edvard Munch para retratar o rosto de Urich. O repórter fica em estado de choque nas horas subsequentes, alheio à sua rotina e a todos que encontra.

Sequência que narra o assassinato de Nicholas Manolis.

O Rei se certifica de que Bazuca está na Nicarágua, e a partir de um breve monólogo, mostra que sua influência é capaz de corromper estruturas de poder militares, empresariais e governamentais. Foggy se encontra com Karen em uma sorveteria. A ex-secretária da Nelson & Murdock abre o jogo sobre o que aconteceu com sua vida e também comenta o relacionamento conflituoso com Paulo. Foggy fala da ruína de Matt e a moça cai em remorsos. Na missão religiosa, Maggie ora pela saúde de Matt em uma cena que representa a Santíssima Trindade Cristã por meio de um triângulo (simbologia também adotada em outras religiões).

No Centro da cidade, um emissário do Rei vai à loja de Melvin Potter (o reformado vilão Gladiador) e encomenda uma réplica do uniforme do Demolidor. O alfaiate sofre ameaças. Na igreja, Matt melhora da febre e recobra sua consciência. O herói relaciona Maggie com a freira que o visitou logo após o acidente que lhe privou a visão. Ele pergunta se a religiosa é de fato sua mãe e Maggie nega sorrindo. Matt ouve os batimentos cardíacos da freira e constata que ela está mentindo. David Mazzucchelli já havia proposto com Denny O’Neil uma graphic novel que contaria a história da mãe de Matt Murdock, mas foi Frank Miller quem trouxe a ideia à tona. Após uma caminhada, o eufórico autor telefonou para Mazzucchelli e sugeriu que Maggie poderia ser uma freira! A personagem volta a ter uma relativa relevância com Kevin Smith em 1998 no arco Diabo da Guarda e em 2014 com Mark Waid. Este último uniu as peças do quebra-cabeça e contou as motivações de Maggie ao abandonar Matt na infância, mas isso é assunto para outra resenha.

Maggie, a mãe de Matt Murdock.

 

Salvo (Daredevil #231, publicada originalmente em junho de 1986)

“Vou descobrir onde está Matt Murdock e no que ele se transformou.”

O prólogo de Daredevil #231 alterna cenas de Matt praticando boxe no Fogwell’s Gym com as do Rei lidando com um funcionário altamente gabaritado, porém inconveniente. A página que intitula a história mostra o nosso herói com a integridade plenamente revigorada. Ben Urich faz um depoimento sobre o caso Manolis e sua respectiva matéria que também expõe o Rei do Crime ganha destaque no jornal Clarim Diário. O repórter passa a ser escoltado pelo segurança Hegerfors e sem perceber é vigiado por Matt. Lois, a enfermeira que matou Manolis se desentende com um funcionário do Rei e resolve se vingar de Urich. Matt, agora ciente das denúncias de Urich, continua a vigiar o repórter e o policial que decidiram parar em um restaurante. Lois chega antes à residência de Urich e surpreende Dóris, a esposa do repórter. A enfermeira recepciona Ben com um soco e abate facilmente o policial. O repórter ouve a voz abafada de Dóris no banheiro e a vê pendurada por uma gravata, prestes a morrer enforcada. Com um esforço fora do comum, ele consegue cortar a gravata com uma navalha que está na pia. Ao voltar para sala, ele vê a enfermeira caída com as algemas do policial e ali constata que Matt está vivo. O telefone toca e Urich recebe uma ligação de Melvin Potter. Matt, que está escondido, ouve tudo.

Em uma instituição psiquiátrica, o Rei combina a alta médica de um perturbado interno. Matt vai à alfaiataria e garante a Potter que o manterá seguro. O alfaiate sorri com a volta do Demolidor. Karen continua tendo crises de abstinência agora no apartamento de Foggy. Da janela, ela observa que Paulo está em uma esquina e se certifica que ele a vigiou durante todo o tempo. Um dos asseclas do Rei dá instruções ao psicopata para que ele vista o uniforme do Demolidor e vá ao apartamento de Foggy para matá-lo. Matt acompanha toda a movimentação às escondidas. Nos arredores do prédio em que se situa o apartamento de Foggy, Paulo abre fogo contra policiais e o psicopata agora vestido de Demolidor, mata o homem do Rei que o acompanhou. Outros dois asseclas com a missão de matar Karen observam a situação de dentro de um carro. A moça derruba Foggy com um vaso de plantas tendo a intenção de proteger o amigo advogado e então foge do apartamento. Matt luta com o falso Demolidor no terraço do prédio de Foggy e o derrota, enquanto que na rua, Paulo rapta Karen. Os dois fogem do fogo cruzado dos homens do Rei.

Paulo é baleado e cai. Karen, ainda subordinada ao vício de heroína, acha uma seringa guardada no casaco de Paulo.  À mercê de ser assassinada pelo seu raptor, resolve usar a droga para se livrar de uma iminente morte dolorosa. Em uma razão de segundos, Matt com o bastão do falso Demolidor, abate Paulo e o único assecla do Rei que sobreviveu. Karen chora emocionada e abraça o grande amor de sua vida. Nos planos de Miller e Mazzucchelli, Karen voltaria à Nova York e Matt conheceria uma nova garota. Os autores resolveram fazer uma mudança de rumos e investiram na ideia de como Matt reagiria à volta de Karen, uma vez que ela foi a pedra angular que culminou na ruína do herói. Todo o sofrimento de Matt lhe concedeu uma purificação que o tornou mais forte, e na contramão de um previsível sentimento vingativo, ele deu importância somente à nova pessoa em que Karen se tornaria a partir do momento do reencontro. Nada mais justo, já que no decorrer das histórias, Matt foi associado à figura de Jesus Cristo. A vitória de Matt sore o Rei do Crime se deu pela sua redenção. A história termina com o saldo negativo do confronto ocorrido nos arredores da residência de Foggy, onde policiais e criminosos foram mortos, tudo narrado sob a perspectiva de Ben Urich.

O reencontro emocionado de Karen e Matt.

 

Por Deus e Pela Pátria (Daredevil #232, publicada originalmente em julho de 1986)

“Balas rasgam carne e osso, uma mulher abraça um bebê que geme pela última vez, um pulmão se rompe…”

Daredevil #232 começa focada em Bazuca, um curioso indivíduo que estampa a bandeira estadunidense tatuada no rosto e repete o mantra “nossos soldados”. Ele se encontra sobrevoando os céus da Nicarágua a bordo de um helicóptero e possui uma metralhadora que é estranhamente apelidada de Betsy. A arma contém um display digital que quantifica os projéteis disparados. Bazuca se lança do helicóptero e dispara sem piedade contra os seus oponentes guerrilheiros. Ele é uma verdadeira máquina de matar típica dos filmes de ação dos anos 80. A narrativa também sugere que o personagem tem seus impulsos destrutivos induzidos por drogas contidas em cápsulas (com as cores da bandeira dos EUA). Em breve, Nova York será contemplada com a visita de Bazuca, graças a um acordo escuso do Rei do Crime com um general norte-americano! Segundo Mazzucchelli, Bazuca foi fruto de uma decisão tardia de roteiro, sua aparição (e estreia nas hq’s) não estava nos planos originais da Queda de Murdock. Na verdade, a jornada de queda e redenção de Matt se encerrou na edição anterior, e as edições Daredevil #232 e #233, funcionam mais como um grande epílogo da saga.

A página da edição que traz o título mostra um momento de intimidade de Matt e Karen em um lar provisório. Ela ainda luta contra a abstinência de drogas. Em um parque, Urich acompanhado de seguranças pessoais, conversa com Foggy. Por motivo de discrição, o advogado reluta em falar sobre a volta do amigo. Em outro lugar, Glorianna tira fotos de situações cotidianas. Bazuca já se encontra em território norte-americano. O Rei toma conhecimento por meio de um comissário de polícia de que a enfermeira Lois quer abrir o jogo e depor para Ben Urich. Em uma conversa ao telefone com Glorianna, Foggy diz estar desconfiado das supostas atividades ilícitas de seu novo emprego. Matt parece estar se aprontando para uma nova rotina de trabalho enquanto Karen dorme tranquila ao lado do traje do Demolidor. Na cadeia municipal, Urich se encontra com Lois, acompanhado de Glorianna, do segurança Hegerfors e do policial Coogan (infiltrado do Rei). Coogan mata Lois covardemente no meio de todos e uma troca de tiros dentro da cela se inicia. Hegerfors e um guarda da prisão caem enquanto Urich impulsivamente desvia o disparo de Coogan contra Glori. Desesperado, o repórter golpeia Coogan com coronhadas e aparentemente mata o sujeito.

Na torre Fisk, o Rei recepciona Bazuca, e por meio de um discurso distorcido, alimenta o patriotismo alienado do soldado. Bazuca logo será encaminhado à Cozinha do Inferno! Matt arruma um emprego modesto de cozinheiro em uma lanchonete, e no término do turno, se encaminha para casa. O herói ouve um estranho barulho de helicóptero nas proximidades. Bazuca aterrissa no meio de uma rua movimentada do bairro nova-iorquino e fuzila vários inocentes com o propósito de chamar a atenção do Matt. No meio do pandemônio instaurado, Matt salva Karen, veste o uniforme de seu alter ego e encara o vilão se apresentando como um novo Demolidor renascido das cinzas!

 

É isso, galera! Semana que vem trago a resenha do capítulo final e um material extra com mais curiosidades sobre a saga! Até mais!