Marcus Vinicius Em 28 - julho - 2017

A Queda de Murdock – Parte 1

Olá, pessoal da Cozinha! Durante esse tempo sem escrever para o site, pensei e decidi fazer uma mudança de planos. Com a série dos Defensores chegando e a terceira temporada de Demolidor sendo produzida, resolvi falar sobre o clássico maior do Atrevido: A Queda de Murdock! Tudo leva a crer que veremos em breve uma adaptação em live action desse arco épico de histórias!

Antes de falar sobre A Queda de fato, é necessário tecer alguns esclarecimentos sobre a mente criativa por trás dessa obra: Frank Miller. O artista tem importância fundamental para as histórias do Demolidor. Foi Miller que redefiniu conceitualmente o personagem no início dos anos 80 e livrou o título Daredevil do cancelamento. O herói que até então ocupava um posto de segundo escalão, se tornou o mais importante da Casa das Ideias naquele período.

Miller começou em Demolidor como desenhista do título, acompanhado de Roger McKenzie nos roteiros e de Klaus Janson na arte-final. A revista ganhou novos ares e começou a despertar o interesse dos leitores, mas discordâncias criativas e de direcionamento levaram o editor do título, Denny O’Neil (mentor de Miller) a retirar McKenzie. Assim, Daredevil #168 de janeiro de 1981 trouxe Miller assumindo os desenhos e roteiros e ainda acompanhado de Janson na arte-final.

Desse ponto em diante, o autor deu uma nova roupagem ao Demolidor, com histórias mais sérias e influências de romances policiais e cinema noir. Miller bebeu bastante da fonte do Spirit de Will Eisner e também retratou elementos da cultura oriental. Personagens como Elektra, Stick e um redefinido Rei do Crime foram grandes contribuições de Miller para o aclamado run de histórias que durou pouco mais de dois anos.

Após sua saída de Demolidor em 1983, Miller produziu a obra autoral Ronin (DC Comics) e volta a trabalhar para a Marvel de forma concomitante com a DC em 1986. Esse último ano foi o mais produtivo da carreira do autor, que além de escrever a Queda de Murdock, fez a graphic novel Demolidor – Amor e Guerra e a minissérie Elektra Assassina, ambas em parceria com o artista Bill Sienkiewicz. Ainda em 1986, Miller viria a revolucionar a indústria dos quadrinhos com a minissérie Batman – O Cavaleiro das Trevas!

Daredevil #158, primeiro trabalho de Miller nos desenhos e Daredevil #168, primeiro trabalho como roteirista e desenhista e que marca a estreia de Elektra.

Ainda para o universo do Demolidor, Miller também produziu posteriormente a graphic novel Elektra Vive no ano de 1991 em parceria com a sua até então esposa Lynn Varley. Em 1993, recontou a origem do herói na minissérie Demolidor – O Homem Sem Medo com o artista John Romita Jr.

 

Não menos importante do que Frank Miller é falar de David Mazzucchelli. O artista estreou profissionalmente nos quadrinhos em 1983 ao desenhar para a Marvel a edição #121 de Mestre do Kung Fu. Após um ano de incertezas sem receber uma nova proposta da editora, desenhou uma edição de Indiana Jones quando finalmente lhe foi oferecido o título de Demolidor. Mazzucchelli se surpreendeu, pois a partir de então, assumiria a arte do título que o trouxe de volta ao mundo dos quadrinhos poucos anos antes quando ainda estava na faculdade de artes. Naquele período, o artista havia se encantado justamente com o primeiro run de histórias de Frank Miller! A princípio, Mazzucchelli ficou apreensivo com tamanha responsabilidade e chegou a renunciar o título brevemente, mas logo foi encorajado por Bob Budiansky e Louise Simonson. A primeira história do Demolidor desenhada por Mazzucchelli é a da edição Daredevil #206 (no Brasil, Superaventuras Marvel #55), que mostra o desenrolar de uma trama já desenvolvida por Denny O’Neil envolvendo o personagem Micah Synn. O traço do artista combinou perfeitamente com o universo noir do Demolidor, mostrando um realismo dotado de uma estilização que a cada edição se tornou mais sofisticada.

 

O ponto alto do artista em parceria com O’Neil foi na edição Daredevil #220 com Bruma (no Brasil, Superaventuras Marvel #60), história que mostra o trágico suicídio de Heather Glenn, ex-namorada de Matt Murdock. Bruma e sua continuação Intriga em Veneza (no Brasil, Demolidor Especial #3 de 1991) são marcadas pelo fato de terem sido desenhadas enquanto o artista esteve na Itália. Mazzucchelli afirmou que naquele período, teve a oportunidade de presenciar a história da arte “ao vivo” e se utilizou mais de referências artísticas externas do que as dos quadrinhos convencionais [1]

Daredevil #220, com a trágica história Bruma.

Outras histórias do artista que merecem destaque são A Noite Mais Longa da Minha Vida (Daredevil #208 e no Brasil, Superaventuras Marvel #49) e Profecia (Daredevil #215 e no Brasil, Capitão América #90 de 1986). A primeira história mostra uma clássica aventura em que o Demolidor é preso em uma mansão cheia de armadilhas e a segunda, ambientada em um cenário de faroeste, mostra um herói antepassado de Matt Murdock conhecido como Defensor Mascarado. Após o seu retorno da Europa, Mazzucchelli recebeu um telefonema do editor Ralph Macchio, informando que Denny O’Neil estava saindo do título. Atônito com a notícia, o artista se surpreendeu ainda mais quando logo depois, soube que iria trabalhar com ninguém mais, ninguém menos do que Frank Miller! A partir daí uma nova parceria rendeu um dos arcos mais aclamados do mundo das histórias em quadrinhos: A Queda de Murdock! A graphic novel formada por sete edições de Daredevil (#227 a #233) foi se remodelando ao longo de sua concepção e de certa forma se distanciou da ideia original de Miller. Mais detalhes da trama serão apresentados na resenha. A dupla Miller/Mazzucchelli sairia da Marvel logo após o término do arco e no ano seguinte, produziria o clássico da DC Comics Batman: Ano Um.

 

A Queda da Murdock (No Original em Inglês, Born Again)

Tudo começou quando Frank Miller, cansado da violência de Nova York, resolveu se mudar para Los Angeles na Califórnia. Ele teria se indignado com um caso ocorrido no final de 1984, onde Bernhard Goetz havia atirado em quatro jovens que tentaram lhe assaltar no metrô de Nova York. O polêmico incidente levantou debates fervorosos sobre segurança e vigilantismo na época. Na Califórnia, os planos de Miller foram para água abaixo. Morando em um apartamento industrial de frente para um bar sujo cheio de seringas espalhadas pelo chão, o quadrinista ficou endividado e com vários projetos acumulados. Sentado em uma banheira ele pensou: “e se tudo isso acontecesse com Matt Murdock? E se ele perdesse tudo?”. Miller falou de sua ideia ao editor Ralph Macchio e com a saída de Denny O’Neil do título do Demolidor, ficou assim acertado o seu retorno [2].

 

Daredevil #226, primeira edição com a dupla Miller e Mazzucchelli.

A primeira edição que marca a volta de Miller ao título de Demolidor é a de número #226 (Superaventuras Marvel #61), que não pertence ao arco da Queda de Murdock, mas já sugere certo direcionamento para os acontecimentos vindouros. O argumento de Guerreiros ainda é coproduzido com Denny O’Neil e a arte fica por conta de David Mazzucchelli e Dennis Janke. Nessa história, um clima de tristeza e descontentamento paira no ar. Matt está deprimido com o suicídio de Heather Glenn e Foggy acabara de se divorciar de Debby. A firma também está enfrentando problemas financeiros, ao ponto de Foggy e a secretária Becky Blake estarem juntando os pertences para um fatídico fechamento do escritório. No desenrolar da trama, Foggy acaba se aproximando de uma desamparada Glorianna O’Breen, que está indignada com os inexplicáveis sumiços cada vez mais frequentes do namorado Matt. A trama principal narra uma recaída de Melvin Potter, que até então havia se afastado da alcunha de Gladiador. Melvin utilizou um uniforme improvisado e foi persuadido a cometer crimes, pois sua amada, a assistente social Betsy, se encontrava refém de bandidos. Após alguns conflitos e luta corporal, Melvin se alia ao Demolidor e ambos libertam Betsy.

O nome original do arco de histórias é “Born Again”, que significa Renascido. O título aborda de fato a queda e redenção do herói, além de sugerir uma temática cristã que será discutida com mais detalhes posteriormente. Portanto, o título em Português descreve apenas parte do que é proposto na história.

 

 

Apocalipse (Daredevil #227, publicada originalmente em fevereiro de 1986)

“Não, não encare a coisa desse modo. Cresça! Estamos nos anos 80! A gente faz o que tem de fazer.”   

A história começa com uma arte bastante carregada de David Mazzucchelli, evidenciando um aspecto diferente do que o artista havia feito até então. O mesmo vale para a narrativa densa de Miller. A Queda de Murdock leva o título do Demolidor a outro patamar mais maduro logo de cara. Não que as edições anteriores eram desprovidas de certo amadurecimento, mas o material agora apresentado ao leitor ia além.

Karen Page, antiga namorada de Matt Murdock, reaparece depois de muitos anos longe das histórias de Demolidor. A personagem soube da identidade secreta do herói no passado, e incapaz de lidar com a situação, se afastou para tentar uma carreira de atriz em Los Angeles (Daredevil #86, abril de 1972). Foi revelado que Karen, agora viciada em drogas, protagonizou filmes eróticos nesse período de ausência. Refém do vício, ela resolve vender o único bem valioso que até agora lhe restara: a identidade secreta do Demolidor!

A valiosa informação é transferida para algumas figuras do submundo quando finalmente encontra o destino nas mãos de Wilson Fisk, o Rei do Crime, que exigiu  a morte de cada intermediário de forma gradativa.  Nunca o vilão havia sido representado de forma tão maléfica, e certamente, nenhum outro autor de quadrinhos superou essa abordagem até hoje. Em questão de meses, a vida de Matt que já estava tragicamente marcada por acontecimentos recentes, desceu vertiginosamente ladeira abaixo. Ele recebe uma intimação que o acusa de subornar uma testemunha para que ela cometesse crime de perjúrio em um caso. Matt ficou surpreso ao saber que a acusação foi feita por Nicholas Manolis, policial com uma reputação impecável de vinte anos. Em um interlúdio, Glorianna tem o apartamento saqueado e logo é acolhida por Foggy. Uma aproximação entre os dois se torna ainda mais evidente. No Clarim Diário, Ben Urich recebe com estranheza a denúncia contra o amigo advogado. Como Demolidor, Matt interroga Manolis e descobre que o policial foi coagido a mentir sobre o perjúrio a fim de que o seu filho doente recebesse tratamento médico.

A partir daí, o inferno de Matt é acentuado com sua conta bancária confiscada e os cortes dos serviços de energia elétrica e telefonia. Sendo auxiliado por Foggy no tribunal, se livra da cadeia pelo crime não cometido de perjúrio, porém perde a licença de advogado. Todo o processo foi acompanhado indiretamente por Fisk. Karen, que desde o início da história se encontra no México, presencia o assassinato do homem para o qual revelou o segredo do Demolidor e foge clamando por Matt. Nas ruas da Cozinha do Inferno, Matt caminha em direção à sua casa (que está hipotecada) e ao sentir um estranho tremor no chão, encara com impotência a explosão de seu lar. Em meio às ruínas, nosso herói encontra o uniforme do Demolidor e se dá conta de que todo o acontecido só pode sido tramado por Wilson Fisk!

 

Purgatório (Daredevil #228, publicada originalmente em março de 1986)

“Só me sobraram dez Dólares. Achei um hotel que me voltou troco.”

Afastado de Glorianna e Foggy, Matt se abriga por uma noite em um hotel barato. Lá, se encontra abatido fisicamente e com a sanidade seriamente comprometida. Passa a ter delírios, ao pensar que seus amigos fazem parte de um complô para lhe prejudicar e acha que por um breve momento, se vingou de Fisk em uma luta corporal. Perturbado, ele resolve sair do hotel e abate o dono do estabelecimento ao achar que se trata de mais um inimigo. Determinado a enfrentar o Rei, vai ao metrô, onde presencia um assalto. Matt agride os ladrões com uma eficaz crueldade e logo depois subjuga um policial, lhe tomando o cassetete. Um informante do Rei acompanha todo o ocorrido. É possível sentir e se impressionar com o desequilíbrio mental de Matt (nunca antes retratado de tal maneira) através da narrativa sucinta de Miller e o traço expressivo de Mazzucchelli. Em um interlúdio, Karen se surpreende ao constatar que a linha telefônica de Matt foi desligada. No Clarim, Urich defende a integridade do amigo perante o pré-julgamento de J.J. Jameson. Glorianna e Foggy ficam apreensivos em frente ao telefone esperando uma resposta de Matt. Finalmente, nosso herói chega à torre Fisk e encontra seu arqui-inimigo à sua espera. Parte para o confronto e inevitavelmente é espancado por Fisk. O Rei se dá ao trabalho de criar um álibi forjando a morte de Matt, colocando-o todo encharcado de uísque dentro de um táxi, que foi violado e jogado no rio Leste. O taxista foi assassinado com o cassetete roubado do policial. Elaborado o crime perfeito, Fisk só não contava com a perseverança de Matt, que com dificuldade, consegue escapar do automóvel. Logo depois o rei toma conhecimento do ocorrido, enquanto Matt cambaleia em direção a um beco.

 

Pária (Daredevil #229, publicada originalmente em abril de 1986)

“E eu… Eu mostrei a ele que um homem sem esperança… É um homem sem medo.”

A história começa com Matt desfalecido em um beco. Em sua mente, ele tem um vislumbre de sua vida desde o acidente com lixo radioativo, que lhe conferiu a cegueira e os poderes extrassensoriais. Miller faz uma narrativa excepcional ao descrever os primeiros momentos em que Matt adquiriu os sentidos aguçados em um leito de hospital, a chegada do pai Jack para confortar o filho e a visita de uma misteriosa freira. Com o término do prólogo, o leitor é apresentado à última arte de uma série feita por Mazzucchelli. Cada título das histórias até então apresentou Matt deitado em ambientes que gradativamente pioravam de condições ao ponto de que ele também veio configurando uma posição fetal. Um contraponto muito interessante que sugere a renúncia de uma vida pregressa com uma nova que está por vir. No movimentado centro de Nova York, Foggy e Glorianna estão abarrotados de presentes de natal e de forma repentina, a moça tem sua bolsa furtada e reage instintivamente contra o ladrão. Foggy consegue afugentar o sujeito com uma bola de boliche dos seus presentes. Glori fica indignada com a passividade e indiferença da multidão à sua volta. Matt finalmente acorda e vai embora do beco de onde se encontrava. No hospital Bellevue, Ben Urich vai ao encontro de Nicholas Manolis para tomar satisfação sobre a acusação feita a Matt. Lá ele descobre que o filho do policial sofre de um grave problema cardíaco e luta pela vida. O repórter também é repreendido por uma desconfiada enfermeira de porte físico avantajado.  No México, Karen enfrenta uma crise de abstinência de drogas e furta as moedas de um morador de rua cego. Ela tem o propósito de voltar para Nova York e continua sendo perseguida pelos homens do Rei. Matt cambaleia pelas ruas e tenta atravessar uma via movimentada quando é atropelado. Ele é negligenciado pelo motorista do carro e em seguida se apoia em um poste para se levantar.

Icônica sequência de Mazzucchelli retratando a queda de Matt.

O arco de histórias até aqui trouxe referências sutis à temática cristã, como os títulos das histórias precedentes, Apocalipse e Purgatório. Em Pária, somos apresentados à famosa relação que o personagem do Demolidor tem com a religião, onde Miller e Mazzucchelli fazem analogias diretas do sofrimento de Matt com a Paixão de Jesus Cristo. Ao ser atropelado, Matt cai pela primeira vez, assim como Jesus em sua via-crúcis. O quadro em que ele se sustenta em um poste é uma representação clara de quando Cristo é flagelado. Matt se levanta e continua caminhando. Em um beco, os ladrões Tucão e Mongol reaparecem (estavam ausentes das histórias do Demolidor por um longo período). A dupla está roubando o traje de Papai Noel de um voluntário coletor de doações. Matt surge, os repreende e mesmo fragilizado, tenta detê-los. Tucão o golpeia com uma faca e Matt cai pela segunda vez sangrando. Acredito que além da segunda queda, o ferimento de Matt também faz alusão à via-sacra de Cristo. A faca seria uma analogia com a lança que o centurião Longino desferiu Jesus na cruz. Em um interlúdio, o filho de Manolis morre no hospital e o policial resolve abrir o jogo para Urich. Enquanto saem do prédio, a enfermeira os espreita. No México, Karen conhece um homem que aceita leva-la à Nova York desde que ela se condicione a um relacionamento abusivo. Esse mesmo homem consegue logo em seguida, eliminar os capangas do Rei que a perseguiam. Em outro lugar, Foggy presenteia Glorianna com um valioso colar e os dois se beijam. Matt chega ao local que abriga os entulhos de sua casa destruída. No pátio do hospital, a enfermeira espanca Manolis e quebra os dedos de uma das mãos de Urich. Matt vai ao Foggwell’s Gym, ginásio onde seu pai treinava boxe, e ao golpear um saco para treinos, cai pela terceira vez. Nesse momento, uma freira que sugere conhecer nosso herói, o acolhe em seus braços. Mazzucchelli reinterpreta a imagem de Pietà (do artista Michelangelo), onde Maria, mãe de Jesus, segura no colo o Filho que acabara de ser descido da cruz. Surge assim, uma grande reviravolta na vida de Matt que será revelada na próxima edição. A história termina com o Rei se exercitando em um aparelho de halteres. Ele se indaga por seis horas sobre sumiço de Matt e de sua provável sobrevivência. A propósito, seis horas foi o tempo em que Jesus resistiu ao calvário, de aproximadamente nove horas da manhã até três da tarde (na Bíblia, Marcos 15:25, 34-37).

Representação de Pietà com Matt e a misteriosa freira. O que o destino reserva ao nosso herói?

 

Pessoal, como a resenha ficou muito extensa, publicarei a continuação posteriormente dando prosseguimento à jornada de Matt Murdock e outras curiosidades. Por ora é isso aí!

 

Fontes:

[1] Entrevista de David Mazzucchelli publicada em Demolidor Especial #2 da editora Abril (junho de 1990).

[2] Livro “Marvel Comics: A História Secreta” de Sean Howe, da editora Leya (edição de 2013).